Carpe diem, o vôo 447, a morte de Ivan Ilitch e as futilidades burguesas

Juizecos escravos dos códigos

Recebo por e mail uma crônica publicada na revista Exame, intitulada Carpe Diem, aludindo ao acidente com o vôo da Air France.
Carpe Diem é uma expressão latina evidenciada em um poema de Horácio e traduz-se em ‘aproveite o dia, o momento, viva o hoje’.
‘Quintus Horatius Flaccus contemplou os céus e captou o fluir silencioso do rio tempo. A transitoriedade aflorou na sentença: Carpe Diem, aproveite o dia de hoje, pois ele é tudo que é dado ao homem. Passado é história, água corrida que não volta. Futuro é hipótese, probabilidade apenas, incerteza e risco, impalpável demais para ser levada tão a sério. É um alerta e uma filosofia de vida. O viver é o já. Existir é hoje. Nenhum tempo além. Nenhum lugar além. Se tiver de ser, que seja eternamente agora. Ou talvez jamais, porque as águas do rio tempo não voltam – e ainda que voltassem não nos encontrariam, pois não seríamos mais os mesmos. Tudo flui’, dizia Heródoto.
Tudo muda. A única coisa que permanece é a improcedência. Nada é eterno, pois que tudo é chama, fluxo, incapacidade, escorregar-se, deixar de ser. Se é para viver, que seja agora. É o que nos alerta Leon Tolstói, no cérebre A Morte de Ivan Ilitch.
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Conta a historia do juiz Ivan Ilitch e arrosta-nos com o destino e sua soberania absoluta. O denominador comum de todos nós. O fim, decretado pela morte. Não há, aqui, que discutir que seja realmente o derradeiro fim, mas escapar-se dela não houve quem conseguisse e pode chegar a qualquer momento com uma única condição, estar vivo.
Mas “A vida de Ivan Ilitch, Juiz do Tribunal, chegou ao fim nos 45 anos. Tolstói revela o “acerto de contas”, expondo a futilidade do modelo de vida burguês. E é, preso ao leito, frente a morte certa, que a vida de Ivan Ilitch revela-se mais livre, mais autêntica e pujante. As preocupações corriqueiras, os afazeres mundanos impediram-no de pensar nela. Na vida.
Enleado diante da morte iminente é que dá-se conta de ter vivido uma vida sem propósito significativo, que não passou daquilo que a sociedade, com seu mero jogo de interesses, de galgar posições de prestígio, de “parecer estar bem”, preconiza.
Foi, na verdade, uma autêntica vida de falsidades. E, no fim, até mesmo aqueles a quem julgava ser fundamental e amado, sua mulher e filhos e amigos, evidenciaram a superficialidade e a falsidade que os habitavam.
Crente desempenhar perfeitamente seu papel de aplicador do Direito, “escravo da lei”, a “boca da lei”, “acima de todos”, mesmo sabendo da inexistência de justiça na lei, age como se existisse.
À semelhança dos médicos que só enxergam uma doença a ser eliminada, não o ser humano que a possui, foi o juiz Ivan Ilitch, incapaz de levantar os olhos dos autos e dos códigos para ver os homens e seus problemas. Aplicava o direito, mas desconsiderava que o Direito não pode ser “aplicado” de uma forma mecânica. Sua prudência (no sentido moderno), que se manifesta em sua dócil submissão a um legalismo convenientemente apropriado ao carreirismo.
Jamais questionou o télos (propósito – objetivo – finalidade) de seus comparsas; “fechou” com a futilidade encantatória da classe dominante; almejada, sem pestanejar, por toda manada, ilusório alvo de imitação. Em seu fim, no instante em que adota uma atitude em relação ao sofrimento, algo fenomenal o liberta da fantasmagórica ameaça da vala-comum psíquica.
Ah, a morte: “Que alegria!”. Ivan Ilitch recebe-a de braços abertos!

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