A rebelião das elites

Por BlogdoJua  – Junho 2012

O perigo dos especialistas: sapientíssimos ignorantes forjando a opinião pública brasileira

É mais do que comum ouvir-se de políticos, imprensa, pseudos líderes ou qualquer um que tenha um banquinho, um microfone ao dispor e um interesse na algibeira, a expressão opinião pública exige, critica, manifesta etc., desde que seja aquela que atenda aos objetivos do palrador. Na falta dessa opinião pública, apela-se para o especialista. Essa, figurinha fácil no noticiário diário, nas pesquisas, nas falácias em geral. Dá pitaco em absolutamente tudo. É o curinga da comunicação.Falácias, pois, comprovadamente, não existe opinião pública no Brasil. No máximo, público-privada. A que existe ou apregoa-se existir é aquela gerada de acordo com o momento, moldada ao bel prazer e utilidade do sistema, de governantes, do poder.

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Os meios de comunicação de massa não propaga opinião livre, gera-a e formam a opinião pública que almeja, forjando-a de acordo com as conveniências, sobretudo do poder, explícito e implícito. A verdade, portanto, é um produto dessa estratégia, que, quando assim o querem, transformam o que bem entendem em opinião pública. Induz, manipula, manobra até a formação de uma verdade conveniente. No futebol e na política isso é vergonhosamente claro.
Esconde, maquia e inventa fatos de acordo com o momento e o objetivo. Em consequência, o jornalista, obrigado a seguir as falsidades, acaba perdendo a personalidade e o senso de responsabilidade pública. Tem o despreparo que adquiriu nas escolas, outro moldador de “opinião”. E sem se dar conta do que faz, pois assim aprendeu, age exatamente ao contrário do que pensa estar fazendo ou pensando. E o mesmo ocorre com a massa que, sem opinião própria, na condição de Carneiros de Panúrgio, metamorfoseia-se em bodes-expiatórios do sistema, alcunhada de opinião pública.
Especialista

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O especialista, na atualidade, alcançou posição tão ou mais importante do que a da opinião pública. Transformou-se em figurinha fácil do noticiário, discursos, levantamentos. Qualquer coisa com meias verdade, duplas mentiras, falácias em bloco.
É a salvação polivalente para a formação da opinião pública. às vezes até a substitui, dependendo da situação. É um sábio ignorante.
Um sábio ignorante, extremamente útil. Para José Ortega y Gasset, significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio. E nada melhor do que essa barafunda para a formação de uma opinião pública conveniente.
Em, in ‘A Rebelião das Massas’, Ortega y Gasset dedica um bom espaço para o misterioso especialista, mal sabendo que estaria em total evidência no século 21. Eis o que o filósofo escritor espanhol tem a dizer sobre essa figura:

O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma dessas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é «um homem de ciência» e conhece muito bem a sua fração de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio.

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E, com efeito, este é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas tomará essas posições com energia e suficiência, sem admitir – e que é o paradoxal – especialistas dessas coisas.
Ao especializá-lo a civilização tornou-o hermético e satisfeito dentro da sua limitação; mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia vai levá-lo a querer predominar fora da sua especialidade. E a consequência é que, ainda neste caso, que representa um maximum de homem qualificado – especialismo – e, portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se comportará s

 

em qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.
A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam, julgam e atuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os «homens de ciência», e é claro, depois deles, médicos, engenheiros, financeiros, professores etc. Essa condição de «não ouvir», de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa, chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. Eles simbolizam, e em grande parte constituem o império atual das massas, e a sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização europeia. Ortega y Gasset, in ‘A Rebelião das Massas’
E, por ironia, está aí, novamente em evidência, o especialista. A serviço do poder, à frente da rebelião das elites.

 

 

 

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